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sábado, 10 de março de 2012

Lembranças de morrer






"Quando em meu peito rebentar-se a fibra, 

Que o espírito enlaça à dor vivente, 

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.



E nem desfolhem na matéria impura 

A flor do vale que adormece ao vento: 

Não quero que uma nota de alegria 

Se cale por meu triste passamento.



Eu deixo a vida como deixa o tédio 

Do deserto, o poento caminheiro 

- Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;



Como o desterro de minh'alma errante, 

Onde o fogo insensato a consumia: 

Só levo uma saudade - é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.



Só levo uma saudade - é dessas sombras 

Que eu sentia velar nas noites minhas ... 

De ti, ó minha mãe! pobre coitada 

Que por minha tristeza te definhas!



De meu pai... de meus únicos amigos, 

Poucos - bem poucos - e que não zombavam 

Quando, em noites de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.



Se uma lágrima as pálpebras me inunda, 

Se um suspiro nos seios treme ainda, 

É pela virgem que sonhei... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!



Só tu à mocidade sonhadora 

Do pálido poeta destes flores... 

Se viveu, foi por ti! e de esperança 

De na vida gozar dos teus amores.



Beijarei a verdade santa e nua, 

Verei cristalizar-se o sonho amigo ... 

Ó minha virgem dos errantes sonhos , 

Filha do céu, eu vou amar contigo!



Descansem o meu leito solitário 

Na floresta dos homens esquecida, 

À sombra de uma cruz, e escrevam nela: 

Foi poeta - sonhou - e amou na vida.



Sombras do vale, noites da montanha

Que minha alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe canto!



Mas quando preludia ave d'aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos.

Deixai a lua pratear-me a lousa!"

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